segunda-feira, 2 de maio de 2011

Monólogo com deus!


Você mandou seu filho para redimir seus pecados, não o dos homens. Não o mandou para salvar seu povo, mas sim sua reputação. Você mandou Jesus com algumas boas palavras sobre você, alguns truques de mágica para provar que era seu filho e o espírito de mártir com o qual os humanos viviam antes do Salvador descer à Terra. Eu morri antes de ler o antigo testamento inteiro, mas o pouco que li já foi suficiente para conhecer o déspota assassino que você sempre foi. Quantos milhões de pessoas você já matou? Quantas pessoas habitavam a terra antes do dilúvio? Quantos morreram pelas suas mãos ou pelo seu nome? Até hoje é assim. Você ainda mata diretamente as pessoas? Não há muitos indícios disso depois de Cristo. Você não quer manchar de novo a reputação que adquiriu vindo à Terra e sangrando um pouco, não é? O sangue... Você só consegue agir através de carnificina? Há alguma magia antiga no plasma sanguíneo que O faça ser mais poderoso através da morte, do sacrifício e do sofrimento? Ou é só o Seu gosto por carne fresca que faz dela a moeda de troca pela sua dádiva? “Sem derramamento de sangue não há remissão”?

É incrível o que você fez com a mente das pessoas, fazendo com que acreditem que aquele sacrifício foi o maior ato de paixão pela humanidade que já existiu. AQUILO NEM FOI UM SACRIFÍCIO! Foi você mesmo que se fez carne e se deixou matar. Ao menos quando um homem pula em frente ao tiro que mataria sua mulher, ele permanece morto. ISSO é sacrifício. E não me venha dizer que sacrificou seu corpo físico, porque você é Deus! Você criou o universo inteiro! O que é um corpo físico pra você? Você poderia ter criado um exército de corpos físicos e destruído Roma se quisesse. Sacrifício... tchi... Se você viesse pra mim e dissesse: “Se você for espancado, chicoteado, torturado, enforcado e morto, garanto acabar com a pobreza no mundo amanhã.” Eu teria aceitado. Eu o faria. Se houvesse certeza absoluta que esse seria o resultado, eu faria. Eu seria lembrado para sempre como o homem que acabou com a pobreza. Mas se você viesse dizendo: “Ah, só um detalhe: você não só será chicoteado e torturado até a morte, mas também o ressuscitarei em menos de uma semana e você será um Deus.” Isso NÃO é um sacrifício.

Você não conseguiu controlar a humanidade através da punição direta, então tentou controlá-la pela culpa. Antes as pessoas pecavam com medo de um massacre coletivo, hoje elas pecam com culpa pela morte de um único homem. Sentem como se gritassem “Liberta Barrabás!”, mas não tiram o pau da boca sequer pra respirar. Sabe o que aconteceu? “Jesus é o cordeiro de Deus, o bode expiatório que morreu carregado com todos os nossos pecados, estamos perdoados hoje e sempre, então podemos pecar!” Foi a indulgência suprema. A igreja medieval vendia remissão de pecados, mas isso era só pra sugar o dinheiro do povo, porque, no imaginário do cristão, Jesus morreu por eles, e não é mais tão necessário tomar cuidado com o que se faz. Uma oração comum poderia ser “Valeu aí, Jesus, por ter sofrido no meu lugar. Estou salvo, mesmo sendo uma criatura filha da puta”.

Você podia simplesmente ter perdoado sua criação falível. Sem jogos mortais. Ou, se isso fosse ser muito pouco simbólico pra você, Jesus podia ser um homem que sai pelo mundo abraçando as pessoas e tirando delas a culpa de viver. Isso podia durar anos, séculos até, foda-se, qual seria o problema? Ele seria seu filho. Ele seria você, tendo um contato direto com sua criação, podendo tocá-la e acolhê-la. Mas nãããããão, você precisa de sangue. Você preferiu sentir a dor das chicotadas, o peso da cruz, a pontada dos pregos. Acho que você queria saber como se sentiam os sacrifícios que você sempre exigiu. Acho também que foi por esse motivo, por sentir a dor, que você deixou de pedir sacrifícios. Perdeu a tara que tinha por eles. Mas é claro que você converteria um erro em um mérito. É próprio da autoridade fazer isso. Então você fez com que as pessoas vissem seu sofrimento. Fez com quem quase toda a humanidade conhecesse a história do seu filho e sentisse o horror da morte violenta, da tortura, da redenção. E incutindo nelas a ideia de que você estava sofrendo no lugar delas, que os pecados delas estavam sendo redimidos com o seu sangue derramado, você conseguiu fazer com que sua criação retomasse a confiança na sua figura, na sua nova figura, crucificada e martirizada, porque elas sentiram empatia pelo seu filho. Sentiram como se ele fosse realmente um irmão, e não o pai abusador, cruel e punitivo que você sempre foi.

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